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Instituto Conviva: um programa de convivência com a Amazônia

Neste mês em que se comemora e se retoma o debate em torno das questões ambientais é oportuno apresentar uma iniciativa que pretende aprofundar as questões ambientais numa relação de convivência com o Bioma Amazônia. Trata-se do Instituto Conviva que é um daqueles projetos que nasce de forma espontânea como uma incubadora nas universidades públicas do Brasil durante os cursos de graduação. O debate sobre o projeto surgiu nos bastidores das disciplinas introdutórias do Curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Roraima (UFRR), na turma de 2018 quando as teorias sociológicas começaram a inquietar alguns estudantes.

Nos debates dos corredores nos intervalos das aulas, um grupo de alunos começou a pensar como seria colocar em prática as teorias sociológicas adaptadas ao contexto da Amazônia. Assim surge o Instituto Conviva coordenado pelo estudante Joel Valerio, das Ciências Sociais, que foi envolvendo um conjunto de estudantes do Centro de Ciências Humanas da UFRR no debate em torno de algo concreto para intervir nos desafios da Amazônia.

Desta forma, a equipe fundadora do Instituto Conviva conta com egressos e estudantes dos cursos de Ciências Sociais, História, Direito, do Mestrado em Sociedade e Fronteiras, de professores e professoras que direta ou indiretamente provocaram os debates e contribuíram com reflexões para que o grupo começasse a pensar possibilidades de intervenção na perspectiva da convivência com a Amazônia.

Concluíram que o Conviva não pretende ser apenas um projeto, mas, um programa permanente de convivência com a Amazônia, inspirado no Programa de Convivência com o Semiárido que objetiva a garantia de melhores condições de vida para os habitantes do Semiárido brasileiro. Para este programa, “viver no Semiárido é aprender a Conviver!” (https://irpaa.org/modulo/portugues). Da mesma forma, o Conviva objetiva, à médio e longo prazo, numa metodologia participativa, desenvolver um processo de convivência como o bioma Amazônia capaz de interligar os povos nas suas mais diversas culturas, realidades e contextos com as floresta e os rios deste território numa atitude de respeito e “cuidado com a grande Casa Comum”, inspirado na Encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco (2015).

A convivência implica em conhecer a terra, a floresta e os rios que simbolizam o lócus da organização social e política, lugar do cultivo e transmissão de práticas sustentáveis que se encontram em todos os lugares da Amazônia. Também implica conhecer que a terra não é propriedade privada nem objeto de exploração, e sim lugar e espaço vivencial. É lócus e território imaginado, sentido e vivenciado como lugar de memória e de respeito aos antepassados. É o lugar da agroecologia, da coleta coletiva e responsável, da pesca, da festa, dos jogos e danças tradicionais. Conviver com Bioma Amazônia representa um grande desafio a ser reaprendido com os Povos Tradicionais da região, de maneira especial os povos indígenas, camponeses e ribeirinhos.

Nessa perspectiva, a proposta do Conviva enquanto programa de convivência com a Amazônia é um conjunto de respostas pautadas nos apontamentos de um amplo diagnóstico da realidade, realizado pelos estudantes ao longo dos últimos dois anos, que indicou inúmeros desafios, dentre eles, a convivência com o bioma da região.

Atualmente, muitas são as instituições preocupadas e empenhadas na busca de meios e possibilidades de uma convivência que retome e dê novos significados a construção de relações humanas pautadas pela ecologia integral baseadas em práticas de cooperação e de participação que buscam alternativas para se viver na lógica da economia solidária baseada na partilha e na solidariedade, nas relações de convivência, respeito e cuidado com a terra, as águas e florestas (novamente inspirado na Encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco). O grande desafio, entretanto, é assumir esta convivência como um modo de vida permanente e não um projeto passageiro.

Aparentemente a proposta do Conviva parece ousada, mas, altamente necessária num contexto marcado pela destruição da Amazônia que está se transformando num grande negócio para empresas nacionais e internacionais que pouco se importam com os povos deste território, nem com este bioma e suas implicações no equilíbrio climático de outras regiões e do planeta. Assim, a convivência com a Amazônia encontra-se na contramão do desenvolvimento da ciência, da técnica, da indústria e da economia a serviço da exploração desmedida dos recursos naturais, da concentração da riqueza e da produção crescente da miséria na Amazônia.

O Conviva quer desenvolver ciência e tecnologias a partir da vivência dos povos que conhecem profundamente este bioma e são capazes de gerar sustentabilidade sem destruir a natureza e sem causar violência aos povos tradicionais que historicamente atuam em defesa deste território sagrado.

O Conviva tem atuado no levantamento das diversas experiências de resistência aos projetos desenvolvimentistas pautados na exploração desmedida e na destruição dos recursos naturais. No diagnóstico realizado pelos estudantes, muitas alternativas ao desenvolvimento baseado na lógica desenvolvimentista neoliberal ou neocolonial foram identificadas em toda a Amazônia. O conviva quer dar visibilidade a estas experiências, articuladas em rede, com o objetivo de orientar e encorajar novas e necessárias experiências de convivência que envolvam os grupos mais vulneráveis nas periferias das cidades, nas fronteiras migratórias, nas margens dos grandes rios e lagos da Amazônia.

Para o Conviva, “não é possível ecologizar o capitalismo”. Desta forma, “ou destruímos a natureza e nos afundamos com ela, ou nos salvamos através de uma nova forma de relação em que a vida dos seres humanos e de toda a natureza esteja em primeiro lugar”, afirma o estatuto do Instituto Conviva novamente pautado na Laudato Si’. Fundamentos estes, de uma sociologia contemporânea pautada no grande expoente Michael Löwy, em sua obra ‘Ecologia e socialismo’ (Cortez Editora, 2005, p. 73) que afirma que para salvar o meio ambiente “é necessário uma mudança de civilização, um imperativo humanista, que diz respeito não apenas a esta ou àquela classe social, mas ao conjunto dos indivíduos. Esse imperativo concerne às gerações futuras, ameaçadas de receber como herança um planeta que se tornou inabitável, onde é impossível viver, devido à acumulação cada vez mais descontrolada dos estragos causados ao meio ambiente”.

Para o Conviva, “os problemas ambientais são sistêmicos e interligados e que ao invés de insistir com os desenvolvimentos alternativos, é necessário construir alternativas ao desenvolvimento”. Diante disso, o Instituto Conviva pretende reunir, legitimar e fortalecer as diversas instituições que buscam, num esforço comum, uma mobilização regional que possa questionar o caráter destrutivo do projeto dominante e apresentar a todas as pessoas de boa vontade a proposta de união em torno de um projeto de sociedade que priorize a Convivência com a Amazônia.

Os diversos projetos que formam o programa envolvem atividades voltadas para as crianças, para a juventude, idosos, camponeses, povos indígenas nas cidades, migrantes internos e internacionais, dentre outros grupos específicos. Dentre as diversas atividades em curso, se destacam as que promovem intercâmbio de culturas com educação intercultural, arte, cuidado com o lixo, trabalho e criação com sustentabilidade (madeira de demolição, coleta de material reciclável, artesanato, costura…), reflorestamento de parques urbanos e áreas degradadas, formação permanente de agentes ambientais capacitados para a vigilância, fiscalização e denúncia de atividades predatórias que contaminam as águas e a terra devastando as florestas e o lavrado.

Na qualidade de socióloga com longa trajetória na pesquisa, no ensino e na extensão, iniciativas como a do Instituto Conviva representam renovada esperança e a certeza de que a sociologia não se limita à formação teórica, mas, orienta projetos de importante intervenção na sociedade. Em tempos de descrédito da ciência, esta iniciativa também representa uma forma de resistência e de valorização do ensino e da pesquisa. Parabéns aos estudantes pela inciativa e a todos e todas que se somarem ao programa de convivência com a Amazônia. Vida longa ao Conviva! O instituto pode ser conhecido e visitado em: https://institutoconviva.com


*Marcia Oliveira é doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia (UFAM), com pós-doutorado em Sociedade e Fronteiras (UFRR); mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, mestre em Gênero, Identidade e Cidadania (Universidad de Huelva - Espanha); Cientista Social, Licenciada em Sociologia (UFAM); pesquisadora do Grupo de Estudos Migratórios da Amazônia (UFAM); Pesquisadora do Grupo de Estudo Interdisciplinar sobre Fronteiras: Processos Sociais e Simbólicos (UFRR); Professora da Universidade Federal de Roraima (UFRR); pesquisadora do Observatório das Migrações em Rondônia (OBMIRO/UNIR). Assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica - REPAM/CNBB e da Cáritas Brasileira.

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